31.3.16

Cinema: Trumbo – entre o golpe e a hipocrisia


Alguém já disse que a democracia é muito frágil para acompanhar a hipocrisia. Pois bem, Trumbo é um filme que aborda um tempo sóbrio de Hollywood, em que uma chamada “Lista Negra” perseguiu os artistas da sétima arte que eram filiados ou simpatizantes do Partido Comunista dos Estados Unidos da América.
Dalton Trumbo foi um dos roteiristas mais conceituados nos Estados Unidos. Porém, sua militância comunista, no auge da guerra fria, fez com que seu nome caísse em desgraça, encabeçando a lista negra.
Trumbo é proibido de trabalhar e, para sobreviver, ele passa a escrever clandestinamente seus roteiros, chegando a um total de 30 roteiros com pseudônimos. Entre tantos, dois lhe renderam o Oscar de melhor roteiro original com o filme “A Princesa e o Plebeu” e “Arenas Sangrentas”. Além desses, destacam-se “Exodus”, “Spartacus” e “Papillon”.
Os diálogos do filme retratam bem o momento vivido na terra de Tio Sam no período em que eles polarizavam o mundo com a União Soviética. O crescimento do fascismo entre os americanos, do individualismo, o cheque-mate nas instituições políticas, patrulhas ideológicas e o impedimento de democratas e comunistas de conviverem em sociedade.
Quem assiste ao filme, fica com a impressão de que quase 70 anos depois do início da lista negra dos EUA, a chamada caça às bruxas chegou ao Brasil. Um exemplo disso é a lista publicada no blog do jornalista Rodrigo Constantino, onde ele cita uma centena de nomes de artistas que assinam o manifesto pela democracia contra o golpe, e diz para seus leitores não mais seguirem esses artistas, pois são a favor de Lula e Dilma. Uma pérola de hipocrisia, para não dizer idiotice. Claro que comparado à lista dos anos 40 nos EUA, a lista do blogueiro da Veja e outras do tipo são apenas fachadas para o discurso do ódio e da perseguição política.
Se Trumbo recebe um copo d’água na cara na saída de um cinema, a cena nos faz lembrar que andar de camisa vermelha na avenida Paulista é muito perigoso. O discurso da direita brasileira dizendo que o Foro de São Paulo é uma conspiração comunista para tomar de assalto a América Latina, lembra o Congresso Americano que baniu todos os membros do PCA pela mesma tentativa de dominar a América.
Ainda nas comparações, talvez o Juiz Sergio Moro seja o nosso mentor do Macarthismo brasileiro, apurando e perseguindo parlamentares de apenas um campo político, como foi na comissão parlamentar de inquérito da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos formada para averiguar a suposta infiltração de comunistas na indústria de cinema e presidida pelo senador Joseph McCarthy.
Bem, voltando ao filme, mostra que a democracia está sempre ameaçada por uma suposta democracia das elites – Ou como preferir, golpe. Mas o genial Trumbo não desiste dos seus ideais.
Se para os americanos o filme pode ser um recorte da história, talvez para nós brasileiros seja um retrato do atual momento. E o discurso de Trumbo na entrega do prêmio da Associação dos Roteiristas é uma pérola:
“A lista negra foi uma época do mal. E ninguém que sobreviveu a ela, passou ileso pelo mal. Pego numa situação que saiu de controle como meros indivíduos, cada um reage a sua natureza, suas necessidades, convicções, e às circunstancias particulares que o compeliram. Foi um tempo de medo. E ninguém foi eximido. Diversas pessoas perderam suas casas. Suas famílias se desintegraram. E ao final alguns perderam suas vidas. Mas quando você olha para aqueles anos sombrios, como todos deveriam fazer de vez em quando, não vai fazer bem procurar por heróis ou vilões. Não há nenhum. Há apenas vítimas”.
Trumbo é um filme motivador num momento em que forças estranhas preparam um golpe contra a democracia brasileira, que é a grande vítima deste processo. Portanto, sem lista, sem golpe!

18.2.16

Filme Cinco Graças ou "Manual para se matar uma mulher”





Indicado ao Oscar de 2016, na categoria de melhor filme estrangeiro, Mustang (Cinco Graças) da diretora turca/francesa Deniz Gamze Ergüven escancara um mundo arcaico, onde se abate o desejo da mulher. 

O filme é narrado por Lale, a caçula das cinco irmãs, e relata o cotidiano das jovens que anseiam a liberdade, mas são tolhidas pelo tio e pela avó, responsáveis por elas.

Tudo acontece porque na saída da escola, num dia ensolarado, as cinco jovens que estão em plena descoberta de suas vontades e, portanto, a sexualidade aflorada, decidem voltar para a casa pela praia, acompanhadas dos meninos. Eles caminham na areia, brincam na água, se abraçam e se empurram, o suficiente para que seus tutores passem a proibi-las de voltar à escola. Pois, segundo a rígida cultura mulçumana, brincar com garotos é uma orgia. 

Aos poucos elas vão sendo aprisionadas por essa cultura que no filme é representada pela casa.

Primeiro, elas são obrigadas a vestir túnica, passam a ter aulas de culinária, só podem tomar sol no quintal e brincar no quarto. Mas isso não as impedem de fugir momentaneamente para ver, por exemplo, uma partida de futebol. 

Após esse episódio, surgem as grades nas portas para que elas não saiam sem a permissão do tio.

A partir daí as janelas passam a ser suas rotas de fuga. Elas pulam para encontrar namorados ou para dirigir carros. Então, a família decide colocar as grades nas janelas, criando uma cadeia domiciliar. 

As meninas vão perdendo sua vitalidade. Elas só saem de casa para os casamentos arranjados pela família. 

A irmã mais velha consegue ser prometida para o próprio namorado (namoro proibido) o que faz dela uma mulher realizada. 

A segunda não tem a mesma sorte, ela casa com um desconhecido e passa a viver de forma submissa. 
No dia de núpcias, após a primeira relação, o marido olha o lençol e não vê sangue, ele entra em desespero. Ao ser examinada no médico, numa forma de acabar com o casamento, ela fala ao doutor que já transou com o mundo inteiro, mas ele a questiona da tal afirmação, já que o hímen não fora rompido, e isso só aconteceria nas próximas relações ou no parto. É o fim para ela.

A irmã do meio, por não aguentar a pressão, comete um suicídio. 

Lale, ao ver que a única irmã que restou também foi prometida, no dia do casamento, decide armar um plano e fugir com ela para Istambul. 

O filme faz uma dura crítica a cultura turca. Ele se apresenta como manifesto à liberdade àquelas mulheres. E esta liberdade está no vento que sopra nos cabelos das garotas, numa carroceria do caminhão; na transa da jovem com um desconhecido no banco traseiro do carro do tio; no olhar de deslumbramento de Lane ao acordar na quarta maior cidade do mundo. 

Entre tantos conflitos políticos e religiosos em que o país atravessou (e atravessa) ao longo dos anos, o conflito narrado pela diretora é o feminino e, portanto, universal. 

Numa época não muito distante, em muitos lugares, inclusive no Brasil, a mulher vivia como um ser inferior, podendo levar surras ou até mesmo mortas se se comprovasse um adultério. Até hoje essa cultura prevalece, mesmo que as leis tenham mudado. 

No Brasil, a mulher sofre algum tipo de violência a cada 15 segundos. Como disse a ex-Ministra-Chefe da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Eleonora Meneghutti: “Infelizmente, a violência contra a mulher é democrática, não tem classe social, nem raça, nem cor”.

E se aqui é difícil, no mundo de Lale é quase impossível sonhar com a Liberdade. 

Deniz debuta sua arte no cinema com coragem e sensibilidade. Se o filme ganha ou não a estatueta norte americana, não sabemos. Mas isso também não importa. O que sabemos é que “Mustang” (Cinco Graças) é um filme obrigatório. 


Gênero: Drama
Direção: Deniz Gamze Ergüven
Roteiro: Alice Winocour, Deniz Gamze Ergüven
Elenco: Ayberk Pekcan, Aynur Komecoglu, Bahar Kerimoglu, Burak Yigit, Doga Zeynep Doguslu, Elit Iscan, Erol Afsin, Günes Sensoy, Ilayda Akdogan, Kadir Celebi, Müzeyyen Celebi, Nihal G. Koldas, Rukiye Sariahmet, Serife Kara, Serpil Reis, Suzanne Marrot, Tugba Sunguroglu
Duração: 97 min.
Ano: 2015

Classificação: 14 anos



10.1.15

Drigo e Guto e uma avenida intolerante

Naquele domingo, Drigo acordou meio-dia, abriu a janela de frente à avenida 9 de julho e sorriu. Ele e Guto se encontrariam para comemorar um ano de namoro.
Um roteiro nada especial. Se encontrar no Masp, passear pela avenida Paulista, pegar um cinema, comer e tomar alguma coisa, talvez dançar na Loka e voltar para o apartamento e trepar.
Guto acende um cigarro ao lado da pedra do museu quando Drigo chega! Eles se beijam.
Guto dá um presente.
- Billie Holiday, que legal, Gu. Eu adorava esse cd. Alguém surrupiou e eu nunca mais achei.
Ele guarda de volta na sacola e de mãos dadas, olham a freirinha de antiguidades no vão livre do Masp e vão ao Espaço Itaú, na Rua Augusta, assistir um filme que Drigo queria muito ver.
Saem do cinema e vão ao boteco na esquina, pedem um lanche e uma cerveja.
Beijos, carícias. Na mesa ao lado, casais héteros, casais gays, todos aproveitando o final do domingo paulista, em que os termômetros marcavam 31 graus, as 21h15.
Guto segura a mão de Drigo.
- Hoje fazemos um ano, é isso? Diz Guto.
Drigo sorri.
- Eu também tenho um presente para você! Drigo tira do bolso um chaveiro com duas chaves e põe sobre a mesa.
- O meu presente é... Vem morar comigo?
Guto expressa surpresa e felicidade.
- Como assim? Pergunta Guto.
- Assim! responde Drigo.
Os dois se beijam.
- Quer ir para a sua nova casa e ouvir Billie, comigo?
- Claro! responde Guto.
Os dois pagam a conta.
Gu e Drigo caminham pela  avenida Paulista até o Masp, fazendo planos para a nova vida. Eles descem sentido a avenida Nove de Julho.
Já na calçada, próximo ao apartamento, oito rapazes, todos muitos fortes, vêm no sentido contrário.
- Uhm! De mãozinhas dadas, meninas! Diz um dos rapazes.
Guto e Drigo abaixam a cabeça e tentam acelerar o passo.
- Peraí, viados! Eles são cercados pelos rapazes.
Dois seguram Guto.
Drigo pede para deixá-los em paz.

- Por favor, deixe a gente ir, não fizemos...
Antes que Drigo pudesse terminar a frase, um outro rapaz com um pedaço de pau lhe acerta a cabeça. Drigo cai e se escuta um sonido de saco de batata, sem esboçar nenhuma reação.
Guto grita.
Os rapazes empurram Guto que, aos prantos, cai no chão. Ele começa a ser linchado.
Um dos rapazes pedem para parar e sair dali. Eles saem correndo, gritando e comemorando.
Guto mesmo machucado se rasteja até Drigo. Drigo não se mexe. Guto grito por socorro.
A cidade de São Paulo adormece, se preparando para a rotina caótica de mais uma segunda feira.


Isso é uma ficção e qualquer semelhança com fatos reais é uma mera conhecidência.
O Brasil é o campeão mundial de crimes homo-transfóbicos, com um assassinato a cada 28 horas! Segundo agências internacionais, 40% dos assassinatos de transexuais e travestis no ano passado foram cometidos no Brasil. Os gays lideram os “homocídios”: 186 (59%), seguidos de 108 travestis (35%), 14 lésbicas (4%), 2 bissexuais (1%) e 2 heterossexuais.

Uma intolerância que precisa acabar. 

7.1.15

Um beijo na calçada do cine Máximo

E ele saiu correndo com uma garrafa de frisante na mão, faltado cinco minutos para a virada daquele 1980, a procura da mulher que, segundo muitos amigos, era a cara dele. 

Naquele verão, em Caraguatatuba, chovia demais e a passagem do ano novo não foi diferente.

Ele foi correndo pelo calçadão, olha o relógio e vê que só faltam quatro minutos. Ele atravessa a avenida e chega a praça, uma multidão vestida de branco caminha no sentido da praia, com sorrisos, rojões e bebidas.

Ele decide dar uma corrida pelo quarteirão, faltando apenas três minutos. Mas parece que nada dava certo.

Ele se culpa, devia ter combinado direito um lugar, mas antes que pudesse ter terminado a conversa a última ficha caiu e tinha uma fila enorme de pessoas querendo usar o único orelhão que realmente funcionava na cidade. Mas como eles sempre se encontravam na praça, rumou para lá.

Nem sinal dela. Pensou em desistir, com uma mão na garrafa e a outra tirando a água da chuva misturada com o suor da testa.

Pensou em voltar para a casa.

Faltando dois minutos, ele procura um toldo para acender um cigarro. Ele traga. A fumaça sobe. Ele joga o cigarro na poça da água e decide voltar para a praia.

No último minuto, na escada do cine Máximo, ela está de branco, seca, se escondendo da chuva.

Ele para diante dela. Ela sorri e desce para a calçada. Os dois se abraçam numa mistura de chuva,  suor e saliva. Eles se beijam de fazer inveja a Bogart e Ingrid Bergmanem Casablanca.

Os dois escutam a multidão fazendo a contagem regressiva na praia. 5, 4, 3, 2, 1. Os rojões explodem.

Ele estoura o frisante e ela vira o primeiro gole.

Para eles, na calçada do cine Máximo, foi a melhor virada de ano de todos os tempos.


Fachada do antigo cine Máximo
* Isto é apenas uma ficção, qualquer semelhança é uma mera coincidência.
O Cine Máximo ficava no centro de Caraguatatuba. Era um cinema de rua que não resistiu aos tempos Vorazes dos cine-shoppings da vida. Fechou as portas em 1999. A fachada pintada com o nome do cinema se mantém até hoje, meio desbotada.

6.6.14

Rir ou não com as comédias brasileiras atuais? - Parte 1

Desde 1994, ano da chamada "Retomada"do cinema nacional, eu corro para ver as estréias dos filmes brasileiros no cinema. Sem  preconceito fui de "Carlota Joaquina" e "Terra Estrangeira" à "Baianinha Cinderela", protagonizada por Carla Perez, que levou o produtor Diler Trintade a falência.
É aquela premissa: Mais vale um filme brasileiro do que um estrangeiro. Bem, será mesmo?
De um tempo para cá ficou impossível acompanhar as estréias dos filmes brasileiros no cinema, pois a produção cinematográfica nacional aumentou muito. Então, decidi fazer um recorte, filmes mais autorais vejo no cinema, comédias comerciais, como as "Globais", em dvd ou internet. O importante para mim, e ver todos e saber o que se produz no nosso cinema.
Tenho assistido várias comédias ultimamente, entre elas cito algumas. Umas surpreendentes e outras desastrosas. Na minha modesta opinião, Vamos lá!



-  O Concurso (2013), de Pedro Vasconcelos. Com Danton Mello, Fábio Porchat e outros.
- O Diário de Tati (2012), de Mauro Farias. Com Helóisa Périssé, Marcelo Adnet, Louise Cardoso.
Helóisa não salva o filme, muito menos Marcelo Adnet. Para ela parecer jovenzinha, a atriz experiente, de 47 anos, foi muito mal dirigida. Ela anda como um hipopótamo, masca chiclete feito um bode e fala com voz de desenho animado - tipo pica-pau, que causa uma vergonha alheia em qualquer telespectador. Uma pena para a boa atriz que é Périssé.


Nao há muito o que se falar deste filme. Comédia estereotipa de mau gosto. Longe de ser burlesca. Atuações desastrosas. É difícil rir. Prefira o Zorra Total.  Mesmo assim, ele fez 1,3 milhões de espectadores.





A produção deve ter levantado uma boa grana, pois são alguns minutos só com apoios, patrocínios e permutas. Mas é uma fria!

A história é uma cópia dessas comédias americanas para adolescentes. Uma garota mimada sem conseguir namorado, suas amigas são nerds, as inimigas de escola são as gatinhas descoladas e no final ela fica com o amiguinho.
Se as empresas que apoiaram esse projeto deram dinheiro através da lei do fomento, dinheiro de impostos pago por nós: - quero meu dinheiro de volta. 
Não chegou há 200 mil espectadores.




- Meu passado me condena (2013), de Julia Rezende. Com Fábio Porchat, Miá Mello, Marcelo Valle.
Não é de se jogar fora. Tem tiradas engraçadas. Mas nada além disso. É o chamado arroz com feijão.
Um recém casal, vividos por Porchat e Miá Mello, embarca num navio para passar sa lua de mel. Lá eles encontram suas antigas paixões. Se não tiver nada mais interessante vale assistir, principalmente num final de domingo, a parte mais tediosa da semana. Chegou a 3,2 milhões de espectadores.




- Os penetras (2012), de Andrucha Waddington. Com Marcelo Adnet, Stephan Nercessian, Mariana Ximenes.
Uma grata surpresa. O trailer não vende o filme, infelizmente, o faz parecer um filme de quinta categoria, tipo o Concurso. Mas é bem feito e engraçado.  Marcelo Adnet e Stephan Nercessian encaram dois mestres da picaretagem em grande estilo.  Vale muito conferir. Lembra as chanchadas da Atlântida.
Levou aos cinemas 2,5 milhões de espectadores.


- Minha Mãe é Peça (2012),  de André Pellenz. Com Paulo Gustavo, Ingrid Guimarães, Herson Capri.
Difícil é ficar sem rir durante quase todos os 85 minutos . Paulo Gustavo encarna a Dona Hermínia,  uma dona de casa, mãe protetora e barraqueira. Ao final do filme você descobre sua inspiração ou transpiração, o que preferir.  Uma bela comédia e uma atuação impecável de Paulo Gustavo. Vale muito!
Quase 5 milhões de pessoas foram ver nas telas a Dona Hermínia.