26.1.12

O protesto dos cineastas contra a “política do coturno”

 O filme Trabalhar Cansa, dos diretores Juliana Rojas e Marco Dutra, conquistou o Prêmio Governador do Estado para Cultura 2011, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, na categoria Cinema. 

Por Paulo Preto, via e-mail

O que não estava no script é que Juliana e Marco, no discurso protocolar de agradecimento ao receber o prêmio, lessem um manifesto, de cerca de três minutos, denunciando os episódios deploráveis ocorridos na USP, na Cracolândia e no Pinheirinho, em que a PM paulista agiu com violência contra a população. No começo a audiência tucana ficou calada, mas depois começaram vaiar para tentar acabar com o ato.

O texto lido por eles, conforme transcrição do Victor Furtado:

“Moção de repúdio à política do coturno em Pinheirinho

De um lado, pelo menos 1.600 famílias que lutam pelo direito de morar no bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), ocupação que tem oito anos de existência. Do outro, mais de 2.000 policiais militares e civis cumprindo ordens da Justiça Estadual e da Prefeitura de São José dos Campos, em favor da massa falida da empresa Selecta, pertencente ao mega-especulador Naji Nahas. Ainda que não houvesse outras circunstâncias agravantes no caso, já seria possível constatar que as instâncias dos poderes executivo e judiciário fizeram a opção, em Pinheirinho, pela lei que protege a especulação imobiliária, em detrimento do direito das pessoas à moradia. Vence mais uma vez a política do coturno em prol do capital.

De um lado, bombas, armas, gases, helicópteros, tropa de choque. Do outro, dois revólveres apreendidos. Não há notícia de que tenham sido usados. Uma praça de guerra é instalada – numa batalha em que um exército ataca civis. Não há plano de realocação das famílias. As que não conseguiram ou não quiseram fugir, ou receberam dinheiro para passagens para outras cidades, ou estão sendo mantidas cercadas, com comida racionada, como num campo de concentração. A imprensa não pode entrar no local, não pode fazer entrevistas, e os hospitais da região não podem informar sobre mortos e feridos. O que se quer esconder? O Governo do Estado lavou as mãos diante do caso, assim como o Superior Tribunal de Justiça. O Governo Federal tardou em agir. A chamada “função social da propriedade”, prevista na Constituição Brasileira, revelou-se assim como peça de ficção, justamente onde a ficção não deveria ser permitida.

Mais uma vez, o Estado assume o papel de “testa de ferro” para as estripulias financeiras da “selecta” casta de milionários e bilionários. A política do coturno em prol do capital vem ganhando espaço. Assim está acontecendo na higienização do bairro da Luz, em São Paulo, preparando-o para a especulação imobiliária; assim vem acontecendo na repressão ao movimento estudantil na USP, minando a resistência à privatização do ensino; assim acontece no campo brasileiro há tanto tempo, em defesa do agronegócio. Os exemplos se multiplicam. E não nos parece fato isolado que, hoje, a quase totalidade dos subprefeitos da cidade de São Paulo sejam coronéis da reserva da PM. Nós, trabalhadores artistas, expressamos nosso repúdio veemente a esse tipo de política. Mais 1.600 famílias estão nas ruas: a lei foi cumprida. Para quem?”


Fonte: Viomundo



6.1.12

Uma triste história na favela do Moinho

Foi em 2008, na campanha do meu amigo Gustavo Petta, que recebemos uma ligação:
– Alô, eu gostaria de marcar um visita do Gustavo no local em que eu trabalho, pra ele conhecer.
– Claro! Mas como é que você conseguiu o nosso contato? Perguntei.
– Foi no site, eu sou Prounista e sei que ele ajudou muito a criação desse projeto. Queria conhecê-lo e mostrar o nosso trabalho.
– Beleza. Aonde fica?
– Na favela do Moinho, sabe onde fica...
Naquele 18 de setembro, quinta-feira, ao meio dia, eu e o Gustavo partimos para conhecer algo completamente obscuro aos olhares paulistanos. Na Barra Funda, colado ao centro da Capital Paulista, entre linhas da CPTM, encontramos com a prounista que nos levou para ver de perto algo completamente diferente da Periferia, das favelas, dos cortiços. Era algo indiscritível.
Nossa cicerone nos levou à entrada da favela do moinho. Depois de passar pelas linhas de trem, embaixo do viaduto, fomos parar num largo, entre as linhas. Nele tinha uma construção de alvenaria. Nessa construção funcionava uma creche com mais de 30 crianças, de recém-nascidos até 3 anos de idade, quase todas sem pais. Essa creche era financiada por padres e nossa anfitriã prestava serviços gratuitamente para cuidar dessas crianças.
Depois de conhecer o local, um outro agente da pastoral passou a nos guiar pelas vielas da favela. Casas feitas de madeira, papelão, compensado, qualquer coisa que abrigasse as pessoas. Um detalhe, todos os agentes que trabalhavam dando assistência aos moradores também moravam no local.
Depois, novamente, outra construção de alvenaria, uma capela, onde aos domingos os moradores se reuniam para rezar dividindo algumas vezes entre as festas de aniversário e velórios.
Passando as vielas, adentramos ao moinho, uma favela na vertical, sendo que no térreo e sem luz funcionava a cooperativa de catadores de papel, com carroças de madeira puxada pelo próprio proprietário do “veiculo”. A maioria tirava 7,5 reias por dia. Ainda no térreo novas vielas demarcadas com papelão e plásticos, sem a luz do sol, apenas uma lâmpanda no centro do Moinho para nos guiar.
E subimos até o último andar. Entre os acessos de um andar ao outro, debaixo das escadas, baratas, ratos e escrementos humanos bestificavam nossa indgnação, além do fedor pustulento que fatigavam nossas narinas.
Na “cobertura”, local privilegiado, presenciamos usuários de crack e traficantes. Como estávamos com o pessoal da Pastoral caminhamos livremente, mas, segundo os agentes, nem sempre era assim.
Assassinatos, estupros rotineiros contra pessoas de qualquer idade, gravidez precoce, e outros tantos problemas ram frequentes. Quando a coisa desandava, entravam os padres e agentes para apazigar os entreveiros.
– O que o senhor pode fazer por nós, Gustavo?
Estávamos catatônicos. O que dizer para alguém que até a palavra dignidade era estranha. Qualquer coisa que dissessemos combaliria a nossa alma.
E o que mais chocava era, mesmo assim, ver a felicidade no rosto das pessoas como se tudo estivesse bem, apenas uma melhorada na alimentação das crianças, encaminhar alguns doentes para as clínicas estaria de bom tamanho.
– O que o senhor pode fazer?
…..

Naquele dia 22 de dezembro de 2011, também uma quinta-feira, um incêndio devastou aquele cenário e voltei no tempo relembrando das pessoas com quem conversei, das crianças que eu vi, dos doentes, dos agentes, do meu amigo Gustavo Petta.
Fiquei pensando por que as autoridades nunca fizeram nada por aquela gente. A favela existiu por 30 anos.
Em outros locais a transformação ocorreu com os próprios moradores, veja o caso do bairro argentino La Boca, local antes degradado, foi sem incêndio, sem polícia, sem violência, mas com arte, inclusão social e que hoje se tornou ponto turístico.
Mas o que se esperar dos nossos governantes e suas políticas higienistas e de interessses na especulação imobiliária?
A Nova Luz, a Nova Barra Funda serão para os novos ricos? E os moradores, trabalhadores que ganham menos de um salário mínino, estes não terão direito a usufruir deste novo centro? Continua a “nova” política paulistana e a velha forma de favorecer os abastados. Até quando?
….

Voltando para aquela quinta-feira de 2008, quando retornamos para o Comitê falei para o Gustavo que queria matar a tarde e ir para casa. Ele entendeu. Não sei o que ele resolveu fazer no período da tarde. Mas quanto a mim, apenas sentei no sofá ao lado de Renata Mielli e chorei.
– O que o senhor pode fazer por nós?