1.3.06

Perde-se um amigo, se ganha outro.

Tenho certeza, Marcelinho foi o meu melhor amigo.
Desde moleque andávamos juntos. Era no timinho da rua, nos bailes do bairro, na escola... As primeiras namoradas, as primeiras transas, os primeiros beques. Éramos unha e carne.
O conheci quando tinha uns nove anos.
Quando saímos do Colégio Adventista, nossos pais pagaram a mesma faculdade.
Tínhamos algumas brigas, mas se restringia ao futebol. Eu, corintiano doente, ele palmeirense fanático. Quando era dia de clássico, a gente não se falava. Quando terminava, quem ganhasse, não podia tirar o sarro de quem perdesse.
Marcelinho namorou minha irmã uns três anos, mas “não deu certo”, como dizem nas “melhores famílias”. Eu namorei a prima dele, na verdade as primas... Como dizia o ditado: bala trocada não machuca.
Feriado de carnaval, eu e Marcelinho alugávamos uma casa na praia. Às vezes Ubatuba, às vezes Garopaba... Convidava “as primona, mano” e curtia todas.
Cansado de praia, decidimos passar o carnaval em Salvador. A gente já tinha uns 25 anos. Na verdade eu 25 e ele 24.
Na terça de carnaval, tinha um bloco só de gata, mas só podia beijar as baianas se estivéssemos vestidos de mulher. Detalhe, Marcelinho era homofóbico. Odiava travesti, gays, homossexuais. “Se vestir de mulher, nunca”. E completava: “Alfredo, você sabe que eu sou homem. Tenho até nojo de pensar isso. Vamos mudar de história. Já to ficando irritado”.
Porém, as duas gatinhas que estavam no quarto insistiram tanto que Marcelinho aceitou. Mas dizia reticente. Vocês não saiam do meu lado.
Estava com as duas meninas, naquela multidão, quando me perdi de Marcelinho. De repente um corre-corre. Confusão. Arrestei as meninas e a turma do deixa disso sossegou a rapaziada.
À noite, Marcelinho aparece, ainda, vestido de mulher, sem peruca e a boca toda borrada.
Falei: Eitá que esse Marcelinho ta comandando demais. Beijou quantas?. Ele disse: Uma boca só!
Respondi: Então é namoro? Ele disse: Acho que sim. Sorriu e foi tomar banho.
No dia de voltar, Marcelinho cancelou a viagem e disse que ficaria mais uma semana.
Passado os dias, Marcelinho me ligou, disse que queria conversar comigo e iria se casar.
Ao chegar ao restaurante o meu espanto: “Oi Alfredo, meu nome é Marcela!”. Fiquei estático.
Ele me contou tudo. Ela, quero dizer. Ele disse que confundiu uma garota e beijou um rapaz. Que tinha ficado apaixonado e resolveu largar tudo e morar com um baiano.
Hoje Marcelinho tem silicone, faz as unhas, cabelos, só anda de vestido e a nossa amizade continua.
Às vezes ela e o Romualdo vêm pra cá. Meus filhos a chamam de tia e ela se tornou uma pessoa muito engraçada. Porém, só não pode brincar quando o timão ganha do Palmeiras. Porque, aí, a Marcelinha vira uma fera.

3 comentários:

Julio Velloz disse...

Palmeirense, homofóbico, vinte e quatro anos....Acho que sei quem é essa biba...

Felipe disse...

porra bixo, vc criou um Riobaldo e Diadorim ao contrário ...

Dani disse...

Adorei ... especialmente depois de saber quais foram suas "musas inspiradoras" ... hehehe
Parabéns!