4.5.09

Quando o ônibus fala

O ônibus "República" saiu do bairro em direção ao centro. Com o barulhinho do motor e o balançado do buzão algumas pessoas piscavam o olho de sono, outras pensavam na consulta do médico, nas dívidas, na aposentadoria, no trabalho. Cada um no seu mundo.
Com todos os bancos ocupados, três pessoas que entraram depois ficaram em pé. Uma senhora com uma imensa sacola agradeceu a educação de um jovem que se ofereceu para segurá-la.
O ônibus ia seguindo o seu destino e as pessoas em silêncio.
Ao chegar na Avenida Santo Amaro ele começou a ir devagar. O Cobrador levantou a cabeça e disparou.
- Xi! tem um carro da polícia e um da CET.
O ônibus ia num anda-e-para.
A mulher da Sacola disse:
- Uhm! Será que é acidente, meu Deus? olhando para duas pessoas sentadas no banco de trás do jovem que segurava a sacola.
Um senhor gordo disse:
- Meu Deus! Espero que ninguém tenha morrido.
Uma jovem fez o nome do pai. Uma velhinha olhou para a senhora de sacola e disse:
- Outro dia, vi um motoqueiro caído no chão todo ensanguentado, que horror.
Um estudante, metido a intelectual resmungou:
- Eitá, o Datena já tá no ar. Recriminando o comentário da velha.
Um senhor de óculos escuro comentou.
- Minha vizinha morreu atropelada por um ônibus, foi horrível.
O ônibus foi se aproximando do local.
A senhora da sacola continuou:
- Eu acho que deveria proibir moto na cidade, é muito acidente!
O ônibus foi passando ao lado do local e o guarda mandou o ônibus passar rápido.
O senhor de óculos escuro colocou a cabeça para fora da janela para ver o que era.
- Ah! é só um cano que estourou a fiação. Decepcionado volta a sentar no banco.
A senhora de sacola também se decepcionou e comentou:
- Só! Ah, ainda bem, né?
E todos voltaram a ficar em silêncio, pensando no acidente que não acontecera, ouvindo o barulhinho do motor e o balançado do buzão.

Um comentário:

Alexandre Prestes disse...

Parece que isso ja aconteceu comigo ...